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Carta de repúdio ao nome de uma Praça na Cidade das Artes Marciais

Publicado: 12/08/2020

Excelentíssimo Senhor Prefeito Marcelo Crivella.
Excelentíssimo Senhor Vereador Marcelo Arar.
Município do Rio de Janeiro.

Chegando ao conhecimento dos capoeiristas cariocas e seus representantes na forma de Federações e Ligas de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro (FCDRJ, FFC, FCCRJ, FECARJ, FFCD, FCERJ, LIMCARJ e CBCD), a indicação do nome de Mestre Bimba para nomear uma Praça na Cidade das Artes Marciais no Rio de Janeiro, viemos a público questionar essa indicação.

Não questionamos a pessoa do Mestre Bimba e seu importante trabalho e valor dentro da capoeira que deixou um legado importante para nossa história.

Porém, quando nos referimos a destacar nomes da capoeira em uma Cidade das Artes Marciais, na cidade do Rio de Janeiro, que foi o precursor das lutas em vários sentidos, devemos observar a história e apreciar outras indicações que fazem mais sentido.

A história mais antiga da capoeira tem suas primeiras passagens na cidade do Rio de Janeiro, citamos esse fato sem entrar em detalhes ou falar sobre as famigeradas Maltas Cariocas.

Iniciaremos falando sobre o primeiro combate entre artes marciais nacionalmente conhecida, sendo apontados por alguns historiadores como o primeiro do mundo nesse quesito, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1909 entre o professor japonês de Jiu-Jitsu Sado Miyako e o capoeirista brasileiro Francisco da Silva Cyriaco conhecido como Macaco Velho. O combate foi orquestrado por alunos de Cyriaco, acadêmicos de medicina, que influenciaram o governo da época a liberar o combate, que foi realizado no tablado do Concerto Avenida, tendo o relato da vitória do brasileiro com um fulminante rabo de arraia estampado com destaque nos jornais da época como o Careta.

Só este fato já destaca a importância da luta capoeira no cenário brasileiro e mundial, colocando em evidência a cidade do Rio de Janeiro.

Poucos anos depois, Agenor Moreira Sampaio, Paulistano de Santos, conhecido como Sinhozinho, se destacava no Rio de Janeiro como lutador e treinador de várias modalidades de lutas, entre elas a capoeiragem que aprendeu observando os valentões, malandros e bambas de sua época no então Rio antigo. Vários de seus alunos obtiveram grandes resultados e vitorias sobre outras artes, utilizando o método de seu professor que passou a ser conhecida como Capoeira Utilitária, sendo muito falada e noticiada em jornais desde os anos de 1920.

Mais tarde, Artur Emídio de Oliveira, baiano de Itabuna, capoeirista e lutador de luta livre, chega ao Rio de Janeiro a partir dos anos de 1950 para lutar com Hélio Grace, mundialmente conhecido por disseminar o Jiu-Jitsu brasileiro. O resultado dessa luta foi um empate.

Porém, o baiano se encanta com a cidade e passa a residir fixamente no Rio de Janeiro. Seu estilo de capoeira remetia ao estilo de capoeira de apresentação baiana, com utilização de ritmo “berimbaus, pandeiro e atabaque”, diferente da capoeira utilitária de Mestre Sinhozinho que era mais voltada para a luta sem a utilização de ritmo. Mas, aos poucos esse encontro de estilos, foi moldando uma nova cara da capoeira carioca, que atualmente, a partir das raízes de Mestre Artur Emídio, é encontrado a maior vertente de capoeiristas do Rio de Janeiro, essa raiz se espalha por outros estados, assim como pelo mundo.

Só para se ter uma ideia, nos anos seguintes, lutadores vindos das linhagens de Mestre Sinhozinho e Mestre Artur Emídio em combates realizados com alunos de Mestre Bimba, saíram vitoriosos, consagrando o grande valor de luta da capoeira carioca.

Um desses nomes que remete a linhagem de Mestre Artur Emídio é o capoeirista Sidney Gonçalves Freitas, mas conhecido como Mestre Hulk, que em 28 de agosto de 1995, se consagra Campeão do Desafio Internacional de Vale Tudo, que foi disputado no Maracanãzinho e tinha como principal favorito o bicampeão mundial de Jiu-Jitsu Amaury Bitetti.

Também não podemos deixar de destacar, o 1º e 2º Simpósios de Capoeira realizados na cidade do Rio de Janeiro, respectivamente em 1968 e 1969, aonde pela primeira vez se reuniram Mestres de Capoeira de todos os estados brasileiros, o evento foi realizado no Campo dos Afonsos, por iniciativa da Federação Carioca de Pugilismo e apoio do Ministério da Aeronáutica. Nesse último simpósio, foram nomeados representantes de cada estado para redigirem anteprojetos que pudessem se tornar o Regulamento Técnico da Capoeira. Após 3 anos de trabalho e espera, somente o representante do então estado da Guanabara, o senhor Damianor Ribeiro de Mendonça, Sergipano de Aracaju, mas que aprendeu e foi consagrado Mestre no Rio de Janeiro, entregou seu anteprojeto e este foi aprovado e homologado em 26 de dezembro de 1972, pelo Conselho Nacional do Desporto, trazendo assim outro panorama para a capoeira, sendo a partir deste documento, permitir registrar oficialmente os grupos e associações de capoeira em território nacional, expandindo a possibilidade de aberturas de academias de capoeira, para a realidade ao qual vemos hoje em todas as regiões.

Algumas das divergências que se seguiram a partir dessa regulamentação, em comum acordo com as Federações de Capoeira de cada estado, seriam decididas pela totalidade de pontos dos combates realizados no 1º Campeonato Brasileiro de Capoeira em 1975 no estado de São Paulo, sendo que uma das divergências era qual seria o padrão de uniforme de capoeira que seria adotado em todo o território nacional. Por totalidade de vitórias e pontos, o estado vencedor foi o da Guanabara, que adotava o padrão de uniforme branco estipulado por Mestre Mendonça em seu projeto de regulamentação.

Como bem vemos hoje em dia, o padrão de uniforme e a identificação visual dos capoeiristas pelo mundo a fora é consagrado pelo uniforme branco, fruto de um Mestre do Rio de Janeiro, ao qual a decisão de adotá-lo oficialmente foi baseado em combates de um campeonato brasileiro.

Por motivos como estes, citados ao longo desta carta, vemos que a indicação do nome de Mestre Bimba não faz jus ao estado do Rio de Janeiro e sua história.

Mestre Bimba, apesar de ter influenciado muitos capoeiristas e grupos em nosso estado, nunca de fato deu aulas, fixou residência ou realizou trabalhos na cidade do Rio de Janeiro.

Desta forma, com grandes representantes da capoeira carioca que se difundiu pelo mundo, representantes estes diretamente ligados à capoeira luta, capoeira desporto, que sendo nativos ou não deste estado, valorizaram o Estado do Rio de Janeiro, se faz crucial e significativo que a indicação e nomeação de uma Praça na Cidade das Artes Marciais tenha o nome de um representante que simboliza a rica história do Rio de Janeiro.

Francisco da Silva Cyriaco - Macaco Velho
Agenor Moreira Sampaio – Mestre Sinhozinho
Artur Emídio de Oliveira – Mestre Artur Emídio
Damianor Ribeiro de Mendonça – Mestre Mendonça
Sidney Gonçalves Freitas - Mestre Hulk

São apenas 5 exemplos de nomes que deveriam ter precedido a indicação atual.
Assim, pedimos a revisão dessa indicação, em favor da história e dos capoeiristas do Estado do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, 11 de agosto de 2020.

Federação de Capoeira Desportiva do Estado do Rio de Janeiro – FCDRJ
Federação Fluminense de Capoeira – FFC
Federação de Capoeira Cristã do Rio de Janeiro – FCCRJ
Federação Estadual de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro – FECARJ
Federação Fluminense de Capoeira Desportiva – FFCD
Federação de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro – FCERJ
Liga Municipal de Capoeira do Rio de Janeiro – LIMCARJ
Confederação Brasileira de Capoeira Desportiva - CBCD


Link para aderir ao abaixo assinado:
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